10 de abril de 2014

Nosso pequeno infinito (Dedicada à Bia)

Me chamo Vanessa Anne Hudgens. Tenho dezessete anos e aos quinze descobri que era portadora de Linfoma de Hodgkin, um câncer maligno originado quando um linfócito se transforma em célula maligna, capaz de crescer descontroladamente e disseminar-se. A célula maligna começa a produzir nos linfonodos cópias idênticas. Com o passar do tempo, essas células podem se disseminarem para outros tecidos no corpo. Quando descobri o tumor ele já estava em estágio mais avançado e já havia se espalhado pelo meu baço. E como esse é o maior dos órgãos linfáticos, minhas chances de cura eram menores ainda.

Mamãe criou a mim e a minha irmã sozinha, mas por sorte ela tinha herdado de seu avô uma grande herança. Nunca passamos dificuldades em relação ao dinheiro. Stella, minha irmã caçula, tem dez anos de idade. Ela é minha baixinha. Amo aquela sapequinha mais que tudo na vida.

Bom, logo que descobri o câncer, comecei a fazer quimioterapia. Meu tumor já estava no estágio IV. Durantes os cincos primeiros meses, meu organismo estava reagindo super bem ao tratamento, mas depois comecei a enfraquecer e daí em diante só tenho piorado.

O médico já disse milhões de vezes que minha última chance de ser curada é fazendo um transplante de medula óssea, caso contrário meus dias de vida estariam contados. O transplante já estava marcado e em poucas semanas, se tudo desse certo, eu estaria curada.

Meu cabelo já tinha caído parcialmente e então resolvi raspá-lo de uma vez. E bom, estou ridícula usando lenços na cabeça, mas é melhor do que eu ficar me lamentando a cada vez que passava a escova pelos meu fios longos, pretos e ondulados e via montes deles caiando.

Minha vida desde que descobri que tinha câncer não está sendo fácil. Por fora tento ser forte, finjo que não me importo, mas por dentro estou com medo, estou triste. Mamãe cuida de mim como ninguém cuidaria. Stellinha alegre todos os meus dias com suas brincadeiras infantis. Apesar de tudo, agradeço a Deus por cada dia que ele me dá pra viver.

Um dia desses, eu estava em um teatro com minha irmã. Quando saí pra comprar um algodão doce pra ela, me esbarrei em um garoto. Zac é o nome dele. Dezenove anos. Alto, corpo másculo, olhos extremamente azuis, cabelos lisos e castanhos aloirados. Lábios finos e pouco rosados, dentes brancos e perfeitamente alinhados. A combinação perfeita em uma única pessoa. Por sorte ele me segurou em seus braços, impedindo que eu fosse ao chão. Ele sorriu pra mim. E que sorriso. Na mesma hora senti meu rosto corar.

Enquanto eu comprava o algodão doce, ele conversou comigo e acabou se sentando ao meu lado quando voltei pra dentro do teatro. Se passou duas semanas desde que nos conhecemos. Nos tornamos melhores amigos. Contei a ele tudo sobre o meu tumor e ele disse que eu era uma guerreira. Sempre me chama de linda, e em seus olhos vejo sinceridade. E é isso que o diferencia dos outros garotos. Antes, muitos rapazinhos corriam atrás de mim, mas depois que emagreci mais e raspei meu cabelo, todos passaram a me olhar com desprezo. Zac não. Ele me conheceu assim, e me acha linda. Não é incrível?

Ontem, quando estávamos no jardim de sua casa conversando, ele me chamou pra sair com ele. Fiquei apreensiva, mas aceitei. E bom, é hoje. E não sei o que usar. Estou tão nervosa. É o meu primeiro encontro desde que adoeci.  Na verdade não é um encontro, afinal somos só amigos, mas dá no mesmo.

-Mãe, eu não sei o que usar.

-Calma, Vany! Escolhe algo simples mas que você goste.

Ela beijou minha testa e saiu do meu quarto. Abri meu enorme closet e olhei as diversas roupas. Nenhuma estava me agradando até que bati o olho em um vestido na cor salmão com um sinto fino na cor marrom. Era simples, mas lindo. Tratei de o vestir e logo peguei numas rasteirinhas e as calcei. Coloquei um par de brincos de pérola e brilhantes e um colar de ouro que Zac havia me dado.  De maquiagem, passei apenas uma sombra leve, uma máscara de cílios e um gloss labial de melancia. Peguei um lenço com estampa floral e o coloquei em minha cabeça. Olhei-me no espalho e pela primeira vez em anos, me senti mulher novamente. Me senti bonita.



Ouvi a campainha tocar e me apressei em descer para o andar debaixo. Zac estava lá na sala. Com uma calça jeans preta, uma camisa azul claro, e uns all stars pretos. Seu cabelo estava desalinhado, como sempre, mas isso o deixava tão natural e tão real pra mim. Um verdadeiro príncipe eu diria.

Quando me viu, ele se aproximou e beijou-me a bochecha. Conversamos com mamãe e Stella e logo nos despedimos delas. Antes de entrarmos no carro ele me parou, me fazendo ficar de frente pra ele. Acariciou meu rosto e sorriu.

-Você está tão linda, Vany. Parece uma princesa!

Meu coração acelerou, minhas bochechas ganharam um leve tom de vermelho e um sorriso tímido se abriu em meus lábios.

-Obrigada, Zac. Você também tá lindo.

Ele sorriu e novamente me beijou a bochecha. Entramos no carro e seguimos até um restaurante que tem perto da praia.

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Tudo estava perfeito. O local. A comida. E principalmente a companhia.  Após o jantar, uma música lenta começou a tocar. Zac me levantou nos levando para o centro do restaurante. Ele colocou minhas mãos em seu pescoço para logo segurar minha cintura colando nossos corpos. Dançamos lentamente. Meu rosto estava deitado em seu ombro. Suas mãos faziam carícias aleatórias em minhas costas.

Depois de mais umas três músicas, fomos andar pela praia. Zac estava me abraçando de lado e de repente parou em minha frente, com as mãos em meu rosto. Me olhava tão profundamente, que pude notar o quão azuis seus olhos eram.

-O que foi Zac?- eu perguntei meio constrangida com a intensidade do seu olhar.

-Você tem os olhos lindos. Parecem duas bolas de chocolate. Na verdade, você é linda. Tanto exterior quanto interiormente.

-Zac, como você pode me achar bonita? Olha pra mim! Estou morrendo! Nem cabelo eu tenho. Nenhum garoto me acha atraente.

-Porque são idiotas. Você é a garota mais linda que já conheci. E o que importa o cabelo?  Isso é apenas algo pra nos dar mais trabalho. Você é linda. Tem uma alma tão pura. É tão delicada.  Eu nunca me apaixonei por ninguém. Na verdade, eu sempre pensei que essa coisa de amor a primeira vista era tudo bobagem. Mas agora vejo que não é. Aconteceu comigo no dia em que nos esbarramos naquele teatro.  Pode ser muito cedo, mas... Eu realmente tô perdidamente apaixonado por você.

-Zac... Você... Como pode? Eu não mereço tudo isso. Você é tão perfeito pra se apaixonar por mim!

-Shiu. Ninguém é perfeito. Mas duas pessoas imperfeitas podem se completar e viver um sentimento perfeito, o amor.

Eu não consegui dizer mais nada. Zac delicadamente tirou meu lenço da cabeça e o guardou no bolso. Fiquei envergonhada, mas ele sorriu pra mim e depositou um leve beijo em minha cabeça desprovida de cabelo. Ele se abaixou um pouco e logo alcançou meus lábios, me dando um beijo calmo e terno.

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 Já se passaram meses desde aquele dia. Eu e Zac estamos namorando. Uma semana depois, fiz a cirurgia, que ocorreu tudo bem.  Meu cabelo já está batendo no ombro e Zac o acha lindo. Ele adora ficar enrolando seus dedos em meus cachos pretos.  Já tivemos nossa primeira noite juntos. Sabemos que foi muito precipitado, mas... Não nos arrependemos de nada. Estou grávida de cinco meses. Cedo demais? Sim, mas aconteceu. E bom, eu estou radiante só de pensar que daqui a quatro meses serei mãe. Zac também está feliz. Vai ser um pai babão. Ele está morando comigo na minha casa. Mamãe no inicio não concordou, mas depois achou que era melhor pra mim. Meu bebê é uma menininha. Ela se chamará Annabelle Hudgens Efron.  Belle, como já é chamada por nós, será nossa princesinha.

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Os meses se passaram. Tudo estava correndo perfeitamente bem até eu descobrir que meu câncer voltou. Foi como se o médico tivesse jogado uma bomba em cima de mim. E pra piorar ele disse que como eu estava grávida eu não poderia fazer outro transplante de medula.  Ou seja, eu poderia não aguentar e morrer. Ou pior. Meu bebê podia ser afetado de certa forma e acabar morrendo também.

Os cuidados de Zac comigo quadruplicaram. Eu fazia de tudo para não prejudicar minha filhinha em nada. E assim, no meu último mês de gestação, senti fortes contrações e fui levada as pressas para o hospital. Estava na hora. Eu já estava na sala de parto, Zac estava ao meu lado, segurando fortemente a minha mão.

-Amor... Me promete que se eu não resistir, você vai cuidar e educar nossa filha? Promete que vai falar de mim pra ela?

Ele me interrompeu com um selinho.

-Princesa, não vai acontecer nada com você. Você é forte.

-Zac, por favor, me promete...

O olhei suplicante, enquanto lágrimas caíam por meu rosto.

-Eu prometo amor. Prometo contar a ela que a mãe dela é a mulher mais incrível do mundo. Guerreira, amorosa, uma verdadeira rainha. Prometo contar a ela que você é a melhor mãe do mundo, a melhor namorada, a melhor amiga. Você é a melhor coisa que aconteceu na minha vida, Nessa.

Quando eu ia falar a médica começou todos os procedimentos do parto. Olhei pra Zac e sorri. Ele sorriu de volta. Tão lindo.

Uma hora de parto. Em exatos oito e quarenta e cinco da noite, ouvi o choro de Belle. Zac cortou o cordão umbilical. A médica colocou-a em meus braços e vi a coisinha mais perfeita do mundo. Annabelle era pequenininha, branquinha, tinhas alguns poucos fios de cabelos loiros, a boca e o queixo dela eram idênticos aos meus. Eu queria ver seus olhinhos. Mas ela estava com eles fechados. Sorri feito boba, pegando na mãozinha minúscula da minha princesinha. Zac fez o mesmo. Depois se aproximou de mim me dando um beijo terno e cheio de amor.

-Uma foto da família? – a médica perguntou com uma máquina fotográfica nas mãos.

Eu e Zac olhamos pra ela sorrindo, enquanto tirava a foto.

-Você e a Belle foram as melhores coisas da minha vida. Obrigada por ser meu amor. Obrigada por ser pai dessa princesinha. Obrigada por você ser o Zac. Cuida da Belle e sejam felizes. Eu te amo, amor.

-Nessa...

Acho que ele viu que meu fim estava perto.

-Cuidarei da nossa pequena e seremos felizes. Nunca me esquecerei de você. Você foi incrível. Obrigada por ter me dado uma filha tão linda. Te amamos minha linda.

Ele acariciou meu rosto, me deu um singelo beijo na testa e depois colou seus lábios nos meus. Eu ia sentir falta daquele beijo. Nos separamos apenas por centímetros. Olhei para Annabelle e sorri.

-Eu te amo minha Belle.

Dei um último beijo em suas mãozinhas e senti a fraqueza dominar meu corpo. Eu podia sentir, era o meu fim. Mas eu estava feliz. Amei. Fui amada. Deixei uma filha. Minha tarefa foi comprida. Sorri pela última vez para Zac, sussurrando que o amava. Uma leve brisa soprou contra mim e depois tudo virou escuridão.

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POV ZAC

Três anos depois...

-Vem Belle. Vamos visitar a mamãe. 

-Já to ponta papai.



-Tá linda minha Belle.

-Bigada, papai. Olha a foizinha que vô levar pá mamãe?

-Que linda. A mamãe vai amar.

Peguei ela no colo e seguimos para o cemitério.

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-Oi mamãe. Ó o que tuxi pá voxe.

Ajudei Belle a colocar a flor sobre o túmulo de Vanessa. Ela olhou para a foto da mãe e a beijou com carinho.  Senti lágrimas se formarem em meus olhos e as segurei. Como sempre faço me sentei ao lado da lápide e coloquei Belle em meu colo. E comecei a contar a ela a história de Vany.

-E então, a mamãe beijou suas mãozinhas- beijei as mãozinhas dela, repetindo o ato de Vany-  e disse “eu te amo minha Belle” e depois virou uma estrelinha.

Belle bateu palminhas e me abraçou forte. Ela nunca se cansava de ouvir a história. Amava a mãe mais que tudo, mesmo sem a ter conhecido.

-Eu amo a mamãe, papai. E amo voxe tamém.

Ela me deu um selinho e depois ficamos ali, apenas sentindo a brisa fresca e conversando com nossa eterna Vanessa.

“Para Vanessa,

É amor, já se passaram três anos desde o dia em que você se foi. Sinto tanto sua falta. Sabe, nunca encontrarei uma mulher como você, e nem quero. Você foi única e continuará sendo até o fim de minha vida, e quando esse dia chegar eu irei de encontrar.

Nossa Belle está cada dia mais linda. Ela está crescendo tão rápido. E se parece cada vez mais com você. Claro que o cabelo, a pele e os olhos são idênticos aos meus. Mas o resto... É sua cópia perfeita. Ela te ama tanto, Nessa.  Fizemos um ótimo trabalho.

Bom, se eu fosse colocar em um papel tudo o que sinto por você, em acabaria com todas as árvores do mundo e sei que você detestava quem destruía a natureza, rsrs. Então vou resumir o máximo que eu puder.

Me apaixonei por você desde o primeiro dia que te vi. Você estava tão linda. Seu sorriso sincero e angelical mexeu com meu coração. Na verdade, tudo em você mexeu comigo. Você foi uma grande mulher, e me fez o homem mais feliz do mundo.

Com você aprendi que as coisas mais importantes da vida, estão em simples palavras e gestos. Aprendi a lutar com unhas e dentes para alcançar meus sonhos. Com você, aprendi a viver. Aprendi a amar. Aprendi a perder. Mas principalmente, aprendi a ser eu mesmo.

Tudo que sou hoje é graças a você. Então, obrigada por ter feito parte da minha vida. Saiba que nosso amor nunca será esquecido. Ele gerou um fruto, a nossa Belle e ela tem o maior orgulho por ser nossa filha. Ela tem o maior orgulho de saber a mãe que ela teve.

E como diz John Green (sei que você amava os livros dele) “Você pode amar muito alguém, mas você nunca pode amar uma pessoa tanto quanto pode sentir falta dela.”, e eu sou a prova viva de que isso é verdade. Mas como prometi a você, estou sendo feliz ao lado da nossa pequena. E prometo que continuaremos sendo, mas nunca nos esqueceremos de você. 

Alguns infinitos são maiores que outros e obrigada pelo nosso pequeno infinito.  Te amo, minha doce a amada Vanessa.
                                                                            Com muito amor, Z”